domingo, 27 de novembro de 2011

País estupidificado


Parece que Portugal, definitivamente teima em não sair do sítio, passam as gerações e a mensagem que continuamos a passar aos nossos filhos e netos continua a ser a mesma que os nossos avós e os nossos pais nos passaram, que é: Portugal está muito atrasado, está tudo sempre na mesma, o governo não quer saber do interior do país, nem da agricultura, ninguém quer saber das pequenas terras que estão abandonadas, ainda ides passar muita fome. Enfim, uma lista infindável de queixas que se prolongam por anos a fio, e continuamos a ouvir as mesmas lamentações. Não é difícil ver qual a razão de toda esta situação, os portugueses estão estupidificados, ou seja, o povo português ainda não acordou para a realidade de estar em democracia, nem tão pouco sentiram a mudança, e muitos até pensam que realmente nada mudou. Porquê? Porque na revolução que se fez em 25 de Abril de 1974 não houve um abanão suficientemente grande para que as teias de aranha fossem derrubadas, e estas continuaram agarradas nos aposentos do poder, a aprisionar as suas presas, mantendo-as com os olhos ofuscados e mantendo-as na ilusão de que estão em democracia e que tudo vai melhorar, o desenvolvimento e um futuro prospero era o destino a seguir, mas o que vemos 37 anos depois é que afinal andamos de cavalo para burro, os direitos a serem retirados, a liberdade com restrições a mais para uma democracia, e o medo instalado na mente das pessoas que sentem estar a ser perseguidas, sem grande à-vontade para expressar as suas indignações nas manifestações, e com medo das forças de segurança, que muitas vezes abusam da força sem grande motivo para isso, sinceramente não é muito democrático, nas pequenas manifestações que se têm feito em Portugal, que até são minúsculas em comparação a outros países, o aparato policial intimidatório e a impor que as pessoas se portem como meninos do coro, ora se é uma manifestação de protesto, não é propriamente um arraial de satisfação, logo é previsível que os ânimos se exaltem, e visto que o povo não tem armas, não é muito pacífico ser confrontado com repressão, por forças de segurança bem equipadas e bem armadas, que não hesitam em dar bastonada a torto e a direito sem olhar a quem batem, se são mulheres grávidas, idosos, crianças, ou jornalistas, o que muitas vezes são excessos que podem ser considerados abusos de poder, não estou a querer dizer com isto que se deixe partir tudo, mas isso não acontece com a maioria dos manifestantes portugueses, nem deve vir a acontecer, mesmo que um dia venha a ser preciso, e quando acontece nas manifestações que se pretende que sejam pacificas, são pessoas infiltradas que pretendem causar distúrbios e a confusão, e apenas esses devem ser repreendidos e não os que simplesmente querem manifestar a sua indignação contra os péssimos governantes. O mais grave é que depois, no rescaldo dos acontecimentos, a opinião dos nossos governantes é dizerem que as forças de segurança agiram muito bem e até lhes dão os parabéns, ora, parabéns por baterem em inocentes, e os culpados muitas vezes já nem estão no local e quem leva são os que não têm culpa, e muitas vezes nem se passou nada de grave, basta haver uns empurrões para começarem a agredir, quando apenas há uma manifestação, por indignação das pessoas e descontentamento, pois caso contrário não estavam ali. Ou será que nas manifestações de contestação tem que se levar bandeirinhas brancas e gritar palavras de ordem: Paz, estamos mal e felizes. 

O que se nota também, é uma ignorância e até uma certa empatia com a democracia, os portugueses ainda olham muito para o passado, ouve-se muita gente falar com saudades do velho ditador, o que demonstra a pouca maturidade e desenvolvimento democrático do povo, pois um povo corajoso, não olha, nem pede o regresso do mal que passou durante muitos anos, mas sim, luta por aquilo que conquistou, a liberdade e a democracia, que são valores importantes e uma grande conquista para um povo, mas que o povo tem que saber preservar e lutar para que os governantes não caiam na tentação de destruir, porque quando os governos se apercebem que o povo está adormecido, começam a reverter aquilo que prometeram, e logo fazem o cerco, apertando cada vez mais os limites, não é por acaso que muitas vezes, há países que caem outra vez na ditadura, pois é, a pacatez do povo, e o deixa andar, pode muitas vezes acabar nisso, e o caminho que Portugal está a tomar não é muito animador, pode até ser muito perigoso, se nada for feito e o povo não acordar, podem crer que o caminho pode ser desastroso e irreversível, ninguém sabe o destino de Portugal e isso está a causar muita ansiedade e desespero nas pessoas, estamos numa situação muito complicada e alguma coisa tem que ser feita, e o que está a ser feito não é solução que leve a bom porto este país.

A grave crise financeira que o país atravessa também não veio favorecer em nada a situação, pelo contrário, veio dar mais um grande empurrão para a perda de soberania e autonomia, pois não cabe na cabeça de ninguém, nem é agradável virem estranhos para aqui dar ordens e impor restrições sem saber e nem querer saber se há pessoas a passar fome ou não, a ordem é para cortar e está resolvida a situação, mas ninguém resolve a situação económica, se não houver produção, não se consegue pagar uma dívida tão grande só a tirar dinheiro às pessoas e aumentando os impostos, o que só vai causar recessão, desemprego e empobrecimento das pessoas e empresas, até mesmo sem dívida, um país só fica economicamente estável, com a criação de riqueza. Portugal poucas vezes ou nunca foi auto-suficiente neste ponto de vista, sendo assim a solução só pode estar numa reestruturação radical da política económica, e se fosse necessário, uma nova revolução industrial, investindo em infra-estruturas de transformação, impulsionando o fabrico de produtos inovadores, conquistar o mercado exterior, incentivar e dar condições a cabeças no campo científico, e acima de tudo dar poder a gerentes e governantes com pulso para enfrentar qualquer ameaça manipuladora, especulativa e corrupta, no sector empresarial e económico. Mas isso seria um milagre acontecer, porque existem forças poderosas a impedir que isso aconteça, não se sabe bem porquê, mas com certeza deve haver alguém interessado em que tudo permaneça como está, pois os abutres só se alimentam do que está em mau estado, e o mal de uns é o proveito de outros, é a política da ganância e corrupção. Vivemos num mundo onde a nossa evolução social e económica podia ser uma coisa boa, com um futuro risonho e bem-estar, mas afinal, o dinheiro venceu a dignidade humana, e estupidificou os nossos governantes de tal maneira, que já não sabem governar de forma justa e socialmente correcta.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Paralisia Social


Já lá vai o tempo em que as pessoas tiveram a oportunidade de ter uma vida melhor e até ficaram com a noção de que estavam a agir bem, e até estavam felizes por terem acabado com um passado de repressão retrógrado, mesquinho, que até dava a ideia de estarmos parados no tempo, e realmente foi assim durante mais de 40 anos. Portugal, e seus governantes do passado, com o orgulho atroz, mas com a mania das grandezas, agarrados a terras longínquas, que diziam eles ser o nosso império, mas que como se sabe nunca foi verdadeiramente nosso, porque quando se entra numa terra em que já existem pessoas lá, não se pode dizer que foi uma conquista, mas sim uma invasão, pois é, estou a falar das ex. colónias, fizemos crescer aqueles países, investimos tudo o que tínhamos, como se os impérios fossem eternos, mas não são, quando o feitiço se vira contra o feiticeiro, as coisas mudam de figura, e então acordamos para a realidade, mas muitas vezes demora-se tempo de mais para entender isso e os problemas acumulam-se, e a tragédia não tarda, é o que acontece com quem tudo quer, tudo perde. Foi o que aconteceu a Portugal, enquanto fazia crescer as colónias o Continente penava, com a falta de tudo, e o povo, que alem de não poder abrir a boca para comer, porque muitas vezes não havia o que comer, também não podiam abrir a boca para falar, para protestar, dizer o que sentiam e nem tão pouco opinar, pois o chefe todo-poderoso e arrogante ditava todas as leis e ordens mesmo que não tivesse razão, e o lema era, manter o povo com rédea curta, ignorante e com fome, manter a grande nação a todo o custo, nem que para isso tivesse que sacrificar o povo, derramando o seu sangue, muitas vidas se perderam numa guerra que nunca fez sentido e que não podia ter outro fim que não fosse a derrota, e dar a independência de mão beijada, e tudo lá ficou, a independência daqueles países era mais que certa, mas aconteceu já muito tarde, devido à teimosia e ganância arrogante, que acabou por se desmoronar, com uma revolução para tirar o mono da cadeira do poder. Mas apesar de tudo, e a revolução que prometia dar a liberdade e a esperança ao povo, com uma democracia que parecia ser a salvação nacional, ainda deu os seus passos e até fez muita gente pensar que o paraíso era aqui mesmo, com altos e baixos, os portugueses lá iam caminhando de braço dado com a jovem democracia, lutando por outras conquistas, a conquista da dignidade no mundo laboral, pois os salários melhoraram, ganharam algumas regalias, produzia-se e construía-se a pensar num futuro que podia e devia ser próspero, o país até cresceu alguma coisa e o povo começou a ver que podia ser a oportunidade de ter a vida que até então não era possível e claro fez planos de nova vida, viver melhor, possuir bens materiais e algumas mordomias que todos temos direito, aquilo a que se chama desenvolvimento da economia, pois, povo que tem dinheiro, compra produtos, investe em negócios, enfim, o país cresce economicamente, tudo parecia correr sobre rodas, isto enquanto ainda existia o Escudo, depois entramos para a UE, e veio o capitalista Euro, até que a euforia do crescimento, começou a descarrilar para outros oportunistas, que logo pensaram em deitar a mão ao dinheiro que andava nas mãos do povo, e que seria melhor começar a recolher algum, e lá vieram os papões vendedores de ilusões a prometerem mundos e fundos a quem tudo comprasse a crédito, dando todas as vantagens, o descalabro começou, ninguém pensou que quando a galinha põe ovos de ouro, a desgraçada da galinha desaparece rápido e sem deixar rasto, depois como uma desgraça nunca vem só, alguém se lembrou de espetar com os aviões nas torres, do outro lado do Atlântico, e a poderosa América espirra, e pronto, a debilitada Europa constipou, e já está com uma pneumonia que pode muito bem ser incurável.

Com a tempestade que se seguiu, impôs-se as guerras para punir os culpados, mas que só piorou mais a situação económica em todo o mundo, e os grandes abanaram, mas os pequenos caíram por terra, e Portugal e os portugueses perderam tudo, o dinheiro, a casa o carro, o emprego, a confiança, a auto estima, a autonomia, e soberania, a esperança, e a única coisa que têm, é uma divida colossal, que pelos vistos, da maneira que os nossos governantes estão a proceder, nunca será paga, nem tão pouco os juros, pois a única solução que eles encontraram, é tirar todo o dinheiro às pessoas, o que vai aumentar o desemprego, e lançar o povo na miséria. O governo português e muitos outros da Europa e no mundo em geral, estão a fazer o mesmo como aquela rábula do dono do burro, que para poupar, deixou de dar as refeições ao animal, até que um dia, o burro morreu, e o dono quando deparou com o burro morto disse: Agora que estavas a dar lucro, é que morreste!        

Por isso chegamos à triste conclusão de que se as ditaduras não são o melhor para a sociedade, as democracias também nem sempre o são, visto que se nos dão a liberdade e nos tiram o pão, pode não ser uma boa relação entre o povo e o poder, e como se costuma dizer, casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, o que pode ser perigoso, e como já alguém disse, podemos estar perante uma convulsão social, ou na pior das hipóteses, vamos acabar por sofrer um AVC.