quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

CHICO ESPERTO, O CAVALO MATEMÁTICO



No início do século xx houve um cavalo na Alemanha que sabia ler e contar e mostrava ter um conhecimento profundo das questões políticas mundiais. Ou, pelo menos, assim parecia. O cavalo tinha o nome de Chico Esperto. O seu dono era Wilhelm von Osten, um cidadão de Berlim tão respeitável que, segundo o que se dizia, a hipótese de fraude estava inteiramente fora de questão. Delegações de cientistas famosos observaram o milagre equino e deram-no como genuíno. Chico respondia a problemas de matemática que lhe eram postos dando pancadas em código com uma das patas dianteiras e respondia a questões não matemáticas abanando com a cabeça para cima e para baixo ou para um lado e para o outro, à maneira ocidental. Por exemplo, alguém perguntava: "Chico, quanto é o dobro da raiz quadrada de nove menos um?" Ao fim de uma breve pausa, Chico levantava devidamente a pata direita e batia no chão com ela quatro vezes. "Moscovo é a capital da Rússia?" A cabeça abanava para cima e para baixo. "E Sampetersburgo?" A cabeça movia-se negativamente.

A Academia das Ciências Prussiana mandou uma comissão liderada por Oskar Pfungst para observar de mais perto; Osten, que acreditava piamente nos poderes de Chico, acolheu os investigadores calorosamente. Então Pfungst reparou numa série de regularidades muito interessantes. Quanto mais difícil era a pergunta, mais tempo levava Chico a responder; quando Osten desconhecia a resposta, Chico mostrava igual ignorância; se Osten estava fora da sala ou se o cavalo tinha antolhos, as respostas não eram dadas com a mesma rapidez. Mas, de outras vezes, Chico dava a resposta num lugar pouco familiar, rodeado por cépticos, às vezes mesmo com Osten fora da cidade. A explicação tornou-se clara mais tarde. Quando era posto a Chico um problema de matemática, Osten ficava ligeiramente nervoso, temendo que Chico batesse demasiadas vezes com a pata. Quando Chico, no entanto, alcançava o número correto de pancadas, Osten, inconsciente e imperceptivelmente, inclinava a cabeça e ficava completamente relaxado: imperceptivelmente para todos os seres humanos presentes, mas não para Chico, que era recompensado com um cubo de açúcar por cada resposta correta. Até as equipas de céticos olhavam para a pata de Chico logo que a pergunta era feita e acompanhavam com olhares, gestos e posturas precisos o momento em que o cavalo acertava na pergunta. Chico era completamente ignorante em matemática, mas muito sensível aos sinais não-verbais feitos inconscientemente pelas pessoas. Sinais semelhantes aos que devia fazer para responder eram-lhe transmitidos sem querer quando perguntas de ordem verbal eram postas. Chico Esperto tinha o nome certo: era um cavalo que condicionava um ser humano e descobrira que outros seres humanos que nunca vira antes lhe forneciam os sinais de que necessitava. Mas, apesar da natureza evidente da prova de Pfungst, histórias semelhantes de cavalos, porcos e gansos que sabem ler e contar e que percebem de política continuam a enganar os ingénuos de muitos países.

Por exemplo, Lady Wonder, uma égua nascida na Virgínia, respondia a perguntas ordenando com o focinho cubos de madeira com letras. Como também respondia a interrogações feitas em particular pelo seu dono, foi declarada não só uma égua erudita, mas também telepática pelo parapsicólogo

1. B. Rhine (Diário da Psicologia Anorma! e Social, 23, 449,1929). O mágico John Scarne descobriu que o dono acenava intencionalmente com um chicote enquanto Lady Wonder movia o focinho entre os cubos para formar palavras. O dono parecia estar fora do campo de visão da égua, mas os cavalos têm excelente visão periférica. Ao contrário de Chico Esperto, Lady Wonder foi parte numa fraude intencional.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O CÉREBRO DE BROCA



Paul Broca foi um cirurgião, neurólogo e antropólogo que desempenhou um papel importante tanto no desenvolvimento da medicina como no da antropologia nos meados do século xIx. Levou a cabo um trabalho considerável na patologia do cancro e no tratamento de aneurismas e deu uma contribuição essencial para a compreensão das origens da afasia – uma diminuição da capacidade de articular ideias. Broca foi um homem brilhante e compassivo. Preocupou-se com os cuidados médicos a prestar aos mais desfavorecidos. Encoberto pela escuridão, e arriscando a vida, conseguiu desviar de Paris, numa carroça, 73 milhões de francos, enrolados em sacos de serapilheira escondidos debaixo de batatas, dinheiro que constituía o tesouro da Assistance Publique e que ele, por qualquer razão, acreditava estar a salvar da pilhagem. Foi o fundador da neurocirurgia moderna. Estudou a mortalidade infantil. No fim da sua carreira chegou a senador. Broca gostava acima de tudo, como disse um biógrafo, de calma e tolerância. Em 1848 fundou uma sociedade de "livres-pensadores". Isolado entre os intelectuais franceses do seu tempo, solidarizou-se com a ideia de Charles Darwin sobre a evolução por seleção natural. O livro de T. H. Huxley O Bulldog de Darwin sublinha que uma só referência ao nome de Broca era capaz de o encher de gratidão e Broca foi citado nele como tendo dito: "Eu prefiro ser um macaco transformado a ser um filho degenerado de Adão." Por esta e outras afirmações, foi publicamente acusado de "materialista" e, como Sócrates, de corromper a juventude. De qualquer forma, chegou a senador. No início, Broca encontrou muitos obstáculos para fundar em França uma sociedade de antropologia. O ministro da Instrução Pública e o chefe da Polícia acreditavam que a antropologia devia ser, tal como a busca do conhecimento sobre os seres humanos, naturalmente subversiva para o estado. Quando, por fim -e mesmo assim com alguma relutância- foi concedida a Broca autorização para falar de ciência com oitenta colegas, o chefe da Polícia tornou Broca pessoalmente responsável por tudo o que nesses encontros fosse dito "contra a sociedade, a religião ou o governo". Ainda assim, o estudo dos seres humanos foi considerado um ato tão perigoso que a Polícia contratou um espião, que aparecia vestido à paisana durante as reuniões e que tinha ordens para interromper de imediato a sessão se se sentisse ofendido por qualquer coisa que fosse dita. A Sociedade de Antropologia de Paris reuniu-se, nestas circunstâncias, pela primeira vez, em 19 de Maio de 1859, ano da publicação de A Origem das Espécies. Em reuniões subsequentes foi discutido um número considerável de questões -arqueologia, mitologia, fisiologia, anatomia, psicologia, linguística e históriae é fácil imaginarmos o espião da Polícia desatento na maioria das ocasiões e às vezes deixando cair a cabeça de sono. Broca relatou que, uma vez, o espião quis dar um pequeno passeio para que não estava autorizado e perguntou se podia abandonar a sala com a certeza de que, na sua ausência, nada de ameaçador seria dito em relação ao estado. "Nem pense nisso", disse-lhe Broca. "Você não pode ir a parte alguma: sente-se e mereça aquilo que lhe pagam." Não foi a Polícia a única que se opôs ao desenvolvimento da antropologia em França. Em 1876, o partido ligado à igreja católica organizou uma campanha enorme contra o ensino dessa disciplina no Instituto Antropológico de Paris, fundado por Broca. Paul Broca morreu em 1880, vitimado talvez pelo mesmo tipo de aneurisma que tão brilhantemente estudara. Nessa altura debruçava-se sobre um estudo global do cérebro humano. Tinha fundado em França as primeiras sociedades profissionais, escolas de pesquisa e algumas publicações científicas de antropologia moderna. Os seus espécimes de laboratório foram então incorporados naquilo a que, durante muitos anos, se chamou o Musée Broca e que, mais tarde, acabou por fazer parte do Musée de 1'Homme. Fora o próprio Broca, cujo cérebro eu embalava entre as mãos, quem iniciara a coleção macabra que eu contemplava. Estudara embriões, macacos e pessoas de todas as raças, trabalhando como um louco para compreender a natureza de um ser humano; e, apesar do aspeto atual da coleção e das minhas suspeitas, ele não era, pelo menos segundo os padrões do seu tempo, mais racista ou chauvinista do que qualquer outra pessoa e muito menos essa figura típica da ficção e, mais raramente, factual: o frio, despreocupado e desapaixonado cientista, muito pouco interessado pelas consequências humanas dos seus atos. Broca interessava-se e muito.

Broca era um exemplar anatomista do cérebro e fez notáveis investigações sobre a região límbica, anteriormente denominada "rinocéfalo" (o "cérebro olfactivo"), que sabemos agora estar profundamente ligada às emoções humanas. Mas Broca nos dias de hoje, é sobretudo conhecido pela descoberta de uma pequena zona na terceira circunvolução do lóbulo frontal esquerdo do córtice cerebral, zona conhecida atualmente como "área de Broca". O discurso articulado, ao que parece, como Broca inferiu de provas apenas fragmentárias, está localizado e é controlado pela área de Broca. Foi uma das primeiras descobertas de que existe uma separação de funções entre os hemisférios esquerdo e direito do cérebro; mas, mais importante ainda, foi uma das primeiras indicações de que funções específicas do cérebro existem em locais particulares do mesmo, de que existe uma relação entre a anatomia do cérebro e aquilo que ele faz, atividade por vezes descrita como "mente". Ralph Holloway é um antropólogo físico da Universidade de Colúmbia, cujo laboratório suponho ter algumas semelhanças com o de Broca. Holloway faz modelos de borracha das partes internas de crânios de seres humanos e afins, de tempos remotos e dos dias de hoje, numa tentativa de reconstruir, a partir de leves indentações no interior do crânio, aquilo que o cérebro deve ter sido numa época remota. Holloway crê que consegue identificar pelo crânio de uma criatura se a área de Broca está ou não presente e encontrou provas da existência de uma área de Broca no cérebro de um Homo habilis com mais ou menos 2 Milhões de anos - precisamente a era das primeiras construções e dos primeiros utensílios. Assim, existe algo que tem a ver com a visão frenológica. É bem provável que o pensamento humano e a indústria tenham andado a par com o desenvolvimento do discurso articulado; e a área de Broca pode, na realidade, ser uma das bases da nossa hominização, bem como um meio de determinar as relações que existem entre nós e os nossos antecessores, na sua caminhada em direção a essa hominização.

Broca foi um humanista do século xIx, mas não foi capaz de abalar os preconceitos enraizados ou as doenças sociais da humanidade do seu tempo. Achava que o homem era superior à mulher e que os Brancos eram superiores aos Negros. Mesmo a sua afirmação de que os cérebros germânicos não eram significativamente diferentes dos franceses foi uma reação à intransigência dos teutónicos, que apregoavam a inferioridade gaulesa. De qualquer forma, ele concluiu que havia relações profundas, na fisiologia cerebral, entre os gorilas e o homem. Broca, o fundador, na sua juventude, da sociedade dos livres-pensadores, acreditava na importância da investigação livre e viveu a sua vida para atingir esse objetivo. A sua incapacidade de realizar esse ideal só mostra que, mesmo os que têm ilimitada capacidade para o livre estudo do conhecimento, como Broca, podem ser paralisados por um obscurantismo endémico e respeitável. A sociedade corrompe aquilo que há de melhor dentro de cada um de nós. Creio que será um pouco injusto criticar alguém pelo facto de não partilhar a clarividência de uma época posterior; mas é também profundamente triste que tais preconceitos se tenham difundido tanto. A questão levanta dúvidas contínuas sobre quais das verdades convencionais da nossa geração serão consideradas pela próxima como um obscurantismo imperdoável. Uma maneira de recompensar Paul Broca por esta lição que ele, inadvertidamente, nos proporcionou é desafiar, profunda e seriamente, as nossas crenças mais enraizadas.

E, na nossa geração, o desenvolvimento das armas nucleares pode, se tivermos pouca sorte e falta de juízo, tornar-se um caso precisamente deste tipo. No entanto, no que diz respeito às experiências sobre o cérebro, os nossos medos são menos intelectuais. Mergulham profundamente no nosso passado evolutivo. Fazem-nos pensar nas criaturas selvagens e nos homens que aterrorizavam os viajantes e as populações rurais da Grécia antiga à beira dos caminhos, através de mutilações procrusteanas e outras selvagerias, até que um herói qualquer -Teseu ou Hércules- conseguisse desembaraçar-se deles sem esforço. Estes medos tiveram uma função específica no passado; mas no presente creio que são apenas portadores de uma grande carga emocional. Eu estava interessado, como cientista que escrevera sobre o cérebro, em encontrar essas reações escondidas dentro de mim, revelando-se durante a minha visita à coleção de Broca. Vale a pena lutar contra os medos. Todas as investigações trazem consigo um certo elemento de risco. Não há garantias de que o universo seja conforme às nossas predisposições. Mas não vejo como podemos agir em relação ao universo - tanto o interior como o exterior - sem o estudarmos. A melhor maneira de evitar abusos, no que concerne ao público em geral, é sermos cientificamente competentes, compreendermos as implicações que existem nessas investigações. Em troca da liberdade de pensamento, o cientista é obrigado a prestar contas do seu trabalho. Se a ciência é considerada um sacerdócio muito fechado, demasiado difícil e secreto para o homem comum compreender, então os perigos do abuso são maiores. Mas, se a ciência é um assunto do interesse geral que preocupa todos -se tanto os seus prazeres como as suas consequências sociais se discutem regularmente nas escolas, na imprensa e ao jantar-, fizemos o melhor que podíamos na aprendizagem de como o mundo é na realidade e do que podemos fazer por ele e por nós próprios. Às vezes penso que esta é uma das ideias que ainda deve estar ali, quieta, preguiçando em formol, no cérebro de Broca.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

RELATO DA MANIFESTAÇÃO DE 14 DE NOVEMBRO


A Senhora da imagem foi uma das vítimas da confusão instalada, mas não faz parte dos protagonistas deste relato.

Sara Didelet, uma das capturadas pela PSP, durante a manif

Por José Maria Barcia

Explica, na primeira pessoa o que se passou e como foi no Tribunal de Monsanto:

Ao contrário do que muitos possam pensar eu não tenho qualquer sede de protagonismo ou vontade de me expor, antes pelo contrário, há até alturas em que prefiro honestamente passar despercebida, mas esta altura não é (porque não pode ser) uma delas.

Decidi escrever este texto porque como cidadã sinto-me não só no direito como na obrigação de relatar o que realmente aconteceu na passada manifestação de 14 de Novembro na Assembleia da República, e digo realmente porque infelizmente mais uma vez a comunicação social preferiu manipular e ocultar a verdade, já para não falar das nojentas e falsas declarações da PSP.

Cheguei a São Bento acompanhada do meu namorado e dois amigos por volta das 16:00/16:30 quando o Arménio Carlos da CGTP ainda estava a discursar. Mantive-me lá alguns instantes, tendo depois chegado outra amiga nossa. Entretanto desloquei-me com uma amiga ao Mini Preço e qual não foi o meu espanto ao ver quando voltámos que já as grades tinham sido derrubadas e já um enorme alvoroço ocorria. Quem esteve presente não pode mentir e ser hipócrita dizendo que não houve violência da parte dos manifestantes pois é claro que houve, durante duas horas os polícias do corpo de intervenção foram agredidos com pedras da calçada, balões de tinta, garrafas de cerveja, etc. Foram agredidos sim, mas por uma MINÚSCULA minoria dos que estavam presentes na manifestação! No meio de milhares de pessoas talvez só umas 10 (e bem visíveis) arremessavam pedras e outros objetos. Independentemente da agressão que sofreram NADA justifica o que se passou em seguida… de repente, sem qualquer aviso prévio, (embora a comunicação social e a PSP insistam que houve um aviso feito através de megafone quem esteve presente na manifestação sabe tão bem quanto eu que não se ouviu absolutamente nada e que não foi feito qualquer esforço para que se ouvisse…) a polícia carregou sobre os manifestantes com uma brutalidade sem medida e que eu jamais tinha visto na vida. Como todos os outros comecei a correr e encostei-me à parede, de seguida várias dezenas de pessoas (muitas de idade avançada) se juntaram a mim e tentámos todos proteger-nos uns aos outros. A maioria das pessoas chorava e gritava “PAREM! PAREM POR FAVOR! NÃO FIZEMOS NADA!” e a polícia continuava a espancar toda a gente sem dó nem piedade e ainda com mais força! Vi velhotes a serem espancados, sei de pessoas que viram pais a serem espancados com os filhos pequenos ao colo, sei de pessoas que viram a polícia a tentar espancar uma pessoa de cadeira de rodas e vários manifestantes a rodeá-lo apanhando a pancada por ele para o protegerem. No meio de tanta violência, confusão e multidão histérica tentando sobreviver o melhor que sabia, consegui fugir com o meu namorado mas acabámos por nos perder dos nossos amigos. Continuámos sempre a fugir em direção à Avenida Dom Carlos I, várias vezes parámos pelo caminho pensando que a polícia já não vinha atrás de nós, e várias vezes tivemos que fugir novamente pois a perseguição continuava. Acabámos por encontrar novamente um dos nossos amigos e depois de vários chamadas telefónicas soubemos que as duas meninas nossas amigas tinham ficado retidas pela polícia, marcámos um ponto de encontro e passados uns minutos elas lá conseguiram fugir e encontrámo-nos todos. Daí para a frente o nosso único objetivo era conseguirmos perceber o que se estava a passar mas acima de tudo assegurarmos também a nossa segurança, mas rapidamente percebemos que tal não seria possível. A polícia pura e simplesmente não parava de perseguir os manifestantes! Continuámos sempre a fugir, parando pelo meio para curtos descansos pois a perseguição continuava… já na Avenida 24 de Julho pensámos estar safos mas que mera ilusão, aí ainda foi pior! A Polícia continuava atrás de nós e de muitos outros mas desta vez disparando balas de borracha! Todos corremos apavorados o máximo que podíamos até que de repente mesmo ao pé da estação de comboios fomos intercetados por um grupo de polícias à paisana que violentamente e chamando-nos todos os nomes e mais alguns nos obrigaram a encostar às grades da estação enquanto mandavam ao chão e agrediam outras pessoas. Lá ficámos sendo enxovalhados e revistados vezes e vezes sem conta. Os rapazes foram todos algemados (uns com algemas e outros com braçadeiras) e separados das raparigas e de seguida fomos obrigados a sentarmo-nos todos no chão sem saber o que ia acontecer pois os polícias só nos intimidavam e não respondiam a nada. Devo frisar que devíamos ser cerca de 15/20 pessoas todos na sua maioria jovens adultos (18/20 anos) e inclusive um rapazinho de 15 anos! Lá fui posta dentro da carrinha com as minhas duas amigas, com o meu namorado e com mais 6 jovens (um dos amigos que tinha ido connosco conseguiu fugir), ou seja 9 pessoas dentro de uma carrinha com capacidade para 6. Fomos dentro da carrinha (os rapazes todos algemados) sem nunca nos ter sido fornecida qualquer informação sobre o lugar para onde íamos ou sobre o que nos ia acontecer. Chegando ao local estivemos uns intermináveis minutos todos fechados dentro da carrinha até que com intervalos pelo meio nos foram tirando de lá um a um, até no final só ficar eu. Fora da carrinha agarraram em mim sempre a gritarem “BAIXA A CABEÇA! OLHA PARA O CHÃO CARALHO!”. Já dentro da “esquadra” (Tribunal de Monsanto, o que por si só representa uma ilegalidade) fui escoltada por uma mulher polícia até à casa de banho onde me obrigaram a despir INTEGRALMENTE, onde me obrigaram a colocar-me de cócoras para verem se tinha algo escondido na vagina ou no ânus, onde me obrigaram a tirar todos os brincos, anéis, pulseiras, atacadores dos sapatos e os próprios sapatos! Fui obrigada a dar o meu nome e data de nascimento. Ficaram com todos os meus pertences (incluindo o telemóvel que antes me tinham obrigado a desligar) e fui levada até à cela de meias num chão gelado! Lá á minha espera estavam as minhas duas amigas e outras duas meninas que também tinham sido detidas. O que se passou a seguir foram duas horas e meia ridículas e sem qualquer sentido… foram-nos sempre negados os telefonemas para casa, sempre que alguém falava nisso alegavam que não sabiam de nada, nunca nos disseram porque estávamos ali, nunca nos respondiam concretamente a nada, apenas mandavam bocas estúpidas! Ficámos na cela duas horas e meia ao frio, sem comer, sem beber, descalços e vá lá que nos deixaram ir à casa de banho embora às meninas tenham dito “espero que tenham aproveitado pois só lá voltam amanhã”. Passadas essas duas horas e meia fomos sendo chamados um a um para recolhermos os nossos pertences e para serem feitas as identificações. Foram preenchidas folhas em que nos eram pedidos todos os nossos dados (BI, nome dos pais, morada, telemóvel, telefone fixo, profissão, etc. …) tendo que assinar no final, caso não o fizéssemos não sairíamos dali. Lá fomos embora, vendo-nos todos no meio do Monsanto muitos sem saberem sequer como ir para casa.

Não fomos espancados na “esquadra” mas fomos todos vítimas de humilhação e violência psicológica. Todos fomos detidos injustamente sem nunca sequer termos sabido o porquê da detenção. Fomos perseguidos como criminosos desde São Bento até ao Cais do Sodré! Éramos todos jovens (como já frisei a média de idades devia rondar os 18/20 anos) cujo único crime cometido foi termos participado numa manifestação. Nem eu, nem nenhum dos meus amigos arremessámos qualquer pedra, garrafa ou o que quer que fosse, não o fiz desta vez nem em nenhuma outra manifestação. Fomos detidos e perseguidos injustamente quando já nos dirigíamos ao Cais do Sodré para apanharmos um táxi para casa!

Quem não esteve presente e não viveu tudo isto certamente pensará que estou a exagerar ou a dramatizar, mas acreditem que não, as coisas foram bem piores até do que aquilo que descrevo. A repressão policial sentida ontem foi muito, muito grave e digna dos mais nojentos regimes fascistas e ditatoriais! As pessoas estavam literalmente a ser espancadas e perseguidas nas ruas e não tinham ninguém que as protegesse! Eu vi velhos cobertos de sangue! Vi mulheres e homens aos gritos de medo e desespero!

Há quem sem sequer ter estado presente insista em “proteger” os polícias e dizer que agiram muito bem, que quem lá estava só tinha era que apanhar, que eles coitadinhos foram agredidos com pedras durante duas horas, que muito pacientes foram eles, que nós os manifestantes somos todos uns arruaceiros. A essas pessoas eu só vos digo: VÃO-SE LIXAR! Abram os olhos, abram a mente e vejam a realidade que vos rodeia! Vão a manifestações e vejam por vocês próprios o que realmente acontece! Sejam humanos, sejam solidários e deixem de acreditar em tudo o que a comunicação social vos mostra! NADA justifica tudo aquilo porque eu e milhares de pessoas passámos e isto não pode ficar impune! Toda a gente tem o direito de se manifestar sem ser agredido brutalmente ou perseguido! Fala-se num aviso feito pela Polícia de Intervenção mas ninguém ouviu esse aviso! Um dos rapazes que foi detido no Tribunal do Monsanto nem sequer tinha participado na manifestação, ia apenas a passar na Avenida 24 de Julho no momento das detenções! Acham isso bem? Acham correto que dezenas de jovens inocentes tenham sido detidos sem terem cometido NENHUM crime? Eu não acho, acho vergonhoso, nojento e muito grave num país que se diz democrático e de 1º mundo! Foram queimados caixotes do lixo e postos a bloquear estradas? Sim foram, mas tudo como uma resposta de enorme ódio e revolta em relação à ação desumana da polícia! Eu era a primeira a ser contra o arremesso de pedras mas depois do que vi e vivi ontem digo com a maior tristeza do mundo: quem age assim não é um ser humano, é uma criatura maldosa e formatada e merecem o que lhes venha a acontecer daqui para a frente. São cães raivosos, mercenários do Estado que vestem a farda da ditadura em vez de protegerem o povo!

A todos os que foram detidos comigo, principalmente quem veio comigo na carrinha e as minhas companheiras de cela: OBRIGADA a todos! Obrigada pelo apoio, pela união, pelo convívio e risos mesmo numa altura tão triste para todos, pelas canções e assobios, pela partilha de opiniões e experiências e acima de tudo por lutarem por um país melhor para todos! Obrigada também a todos os que estavam à nossa espera à saída do Tribunal do Monsanto e a todos os que se preocuparam connosco.

Estou viva, bem fisicamente mas muito, muito triste e desiludida com tudo o que vivi … ainda estou em estado de choque e a achar surrealmente grave tudo aquilo que se passou. Peço desculpa se o texto não está o melhor possível mas é muito complicado relatar com exatidão tão chocante experiência.

O objetivo era incutir-nos medo e fazer-nos não frequentar mais manifestações? Teve o efeito exatamente contrário: não me calam e jamais me impedirão de lutar por aquilo em que acredito! A luta continua sempre! VOLTAREMOS!''

Democraticamente falando



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Lâmpadas economizadoras


CUIDADO! Aviso do Ministério da Saúde Britânico


Isso é a mais pura Verdade! "Partilhem, pois é de interesse público"!

É DE LAMENTAR NÃO SER O NOSSO MINISTÉRIO A FAZER O ALERTA, pois, isto tudo é absolutamente verdade! 

MAIS AINDA: UM CORTE COM O VIDRO DE UMA DESSAS LÂMPADAS NÃO CICATRIZA!  

Tem de haver atendimento médico especializado para que seja feita a devida RASPAGEM DO TECIDO CORTADO, em ambas as bordas, para que a cicatrização possa acontecer.

Atenção às lâmpadas de consumo reduzido.
Se alguma se partir, devem seguir as instruções do Ministério da Saúde britânico para que sejam evitados os graves danos causados pelo mercúrio:

Estes tipos de lâmpadas, economizadoras de energia, ao partirem, causam sério perigo! Se isto acontecer, o local deverá ser evacuado por, pelo menos, 15 minutos. Porque elas contêm mercúrio (venenoso), que causa enxaqueca, desorientação, desequilíbrios e outros problemas de saúde, quando inalado.

Os resíduos devem ser limpos com vassoura ou escova, colocados num saco plástico que deve ser lacrado e jogado no lixo para materiais perigosos.

Além disso, o ministério alertou para não limpar os restos da lâmpada partida com o aspirador de pó, pois iria espalhar a contaminação para outros lugares da casa.

Também se deve usar luvas descartáveis de proteção que depois serão deitadas fora junto aos restos da lâmpada.

Aviso: O mercúrio é perigoso, até mais venenoso que o chumbo ou arsénio!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Forças de insegurança



Enquanto o crime organizado atua livremente, impune, e a corrupção prolifera, estes senhores que se orgulham de ser uma força de segurança, não passam de cães raivosos com vontade de descarregar as suas frustrações nos inocentes, que simplesmente lutam contra os ditadores fascistas disfarçados de democratas, que inventaram a democracia para ser um antro paradisíaco para eles, e esmagar o povo, os seus direitos sociais e humanos. A apatia entre o poder e o povo só pode ser cada vez maior, e o povo se não lutar unido e eficazmente contra este terror, será dizimado, torturado e eliminado de vez da face da terra, ALERTEM, abram as vossas consciências, lutem até ao fim, para o que der, e vier.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A lista do assalto colossal


Os portugueses integraram rapidamente no seu vocabulário as palavras "tróika" e "austeridade", usando-as muitas vezes como sinónimos. E a verdade é que o Memorando de Entendimento, assinado a 3 de maio de 2011, assinalou o início de uma avalancha de medidas que representaram um considerável aperto do cinto.

No entanto, o Governo foi além do que a tróika exigia quando suspendeu os subsídios de Natal e férias dos funcionários públicos. Ontem mesmo, o chefe da missão do FMI para Portugal dizia que a tróika também não exigiu as mexidas na TSU.

Família

1. O acesso aos cuidados de saúde ficou mais caro. A taxa moderadora numa consulta nos centros de saúde é de 5 euros e numa urgência ronda os 20 euros. As isenções são atribuídas com base no rendimento.

2. O IVA de diversos produtos, como a água engarrafada, aumentou para a taxa intermédia de 13%. Os refrigerantes passaram a estar sujeitos à taxa de 23%. O IVA na restauração subiu para 23%.

3. O IVA sobre o gás e a eletricidade subiu de 6 para 23% ainda em 2011. Este ano, o preço da eletricidade aumentou 4%.

4. O IMI - Imposto Municipal sobre Imóveis é agravado em 0,1% nas habitações reavaliadas ou transacionadas desde 2004. A taxa mínima passa de 0,5% e a máxima para 0,8%. Para alguns, os aumentos serão consideráveis.

5. As deduções com a habitação no IRS baixam para 15% num montante máximo de 591 euros. Antes eram de 30%. No próximo ano os descontos para IRS poderão aumentar se avançar a redução dos escalões.

6. As despesas de saúde passam a ser dedutíveis em sede de IRS apenas em 10%, menos 20% que os 30% até então aplicados. As deduções com seguros e educação também diminuíram.

7. Os transportes públicos sofrem um aumento de 15%, em Agosto de 2011, e no início de 2012 voltam a aumentar 5%.

8. Acabam os chamados passes sociais. Os reformados e estudantes deixam de ter direito a descontos. Os descontos dependem agora do rendimento.

9. As estradas sem custos para o utilizador, SCUT, passam todas a ser pagas.

Mais ricos

1. No ano passado, o Imposto Sobre Veículos (ISV) subiu 6,4% e no Orçamento do Estado estipulou-se que os montantes estavam sujeitos à cilindrada e às emissões de CO2. Assim, quanto mais cilindrada tem e quanto mais emitir CO2, mais paga de imposto. Em 2013, vai ser criado um imposto que agrava ainda mais o que os "veículos ligeiros de alta cilindrada" já pagam, mas contudo, ainda não ficou claro a partir de que cilindrada é que se vai pagar esse imposto.

2. Criação de uma taxa de IRS adicional de 2,5% para os rendimentos anuais superiores a 153 300 euros. Esta soma à taxa de 46% aplicável a este escalão de rendimento. Ou seja, os mais ricos já eram alvos da austeridade.

3. As embarcações de recreio e as aeronaves de uso particular também vão passar a pagar mais. O Governo anunciou a medida ontem, mas não explicou de que forma é que iria cobrar mais aos detentores destes bens. Hoje, os barcos e jatos particulares pagam Imposto Único de Circulação (IUC).

4. As despesas com as casas, cujo valor patrimonial seja igual ou superior a um milhão de euros, vão também subir e ser agravadas com uma nova taxa em sede de Imposto de Selo. Este pode ser aplicado à posse e não apenas nas transações e deverá funcionar como uma receita que irá para os cofres do estado e não para as autarquias, como acontece com o IMI.

Função Pública

1. O corte salarial médio de 5% para remunerações acima de 1500 euros foi implementado em 2011 e será mantido até data incerta.

2. Sobretaxa de IRS no subsídio de Natal pagos em 2011, equivalente a metade do valor líquido na parte que excedia os 485 euros

3. Suspensão parcial dos subsídios de férias e de Natal para salários superiores a 600 euros e inferiores a 1100 euros. A partir deste valor o corte é integral.

4. Manutenção do congelamento nas progressões remuneratórias.

5. Idade da reforma passa em 2013 (e não em 2015) dos 63 anos e seis meses para 65 anos e o congelamento das admissões não tem fim à vista.

6. Revisão das regras da mobilidade especial com descida dos valores pagos e maior penalização para quem recuse uma recolocação.

7. Possibilidade de rescisões por mútuo acordo.

8. Subida de 11% para 18% nas contribuições para a CGA ou Segurança Social (admitidos a partir de 2006).

Privados

1. Sobretaxa de 3,5% no subsídio de Natal equivalente a 50% do valor líquido na parte que excedia os 45 euros.

2. Sujeição ao pagamento de IRS e de Segurança Social do subsídio de refeição de valor acima dos 5,55 euros quando pago em dinheiro (6,41 euros quando pago através de título de refeição).

3. Suspensão das reformas antecipadas.

4. Suspensão da bonificação de três dias úteis de férias atribuída aos trabalhadores assíduos, o que faz com que o período de férias tenha caído de 25 para 22 dias.

5. Despedimento por inadaptação facilitado, deixando de estar dependente de alterações tecnológicas no local de trabalho.

6. Criação de um limite máximo para as indemnizações em caso de despedimento, passando este a ser equivalente a 12 meses de salário.

7. Subida de 11% para 18% nas contribuições para a Segurança Social.

Recibos Verdes

1. Em setembro de 2011, altura em que é apurado todos os anos o novo valor a pagar à Segurança Social com base nos rendimentos do ano anterior, os recibos verdes viram as suas regras mudar em resultado do novo Código Contributivo que tinha sido aprovado em janeiro desse ano.

2. Até 15 de Fevereiro de 2012, os trabalhadores independentes tiveram de fazer a declaração dos seus rendimentos. Em 2011, a declaração não foi exigida.

3. Os recibos verdes também terão direito a acumular o subsídio de desemprego com um salário de um novo emprego. Só vai acontecer em 2013, mas já se ficou a saber este ano.

4. Em 2013, os trabalhadores independentes vão passar a descontar para a Segurança Social não 29,6% como até aqui, mas 30,7%. Uma subida de 1,1 pontos percentuais, menos do que os sete pontos percentuais agravados para os trabalhadores por conta de outrem, que passarão a pagar 18%, mas que resulta do facto de os trabalhadores independentes não terem patrão que desconte também.

Desemprego e RSI

1. Desde que foi assinado o Memorando com a tróika, há mais 167 mil desempregados. No total são mais de 850 mil pessoas que estão sem emprego.

2. O subsídio de desemprego dura menos tempo e o valor máximo da prestação baixou. O limite máximo da prestação era de 1257,66 euros e passou para 1048,05 euros mensais. O tempo máximo de subsídio é de 26 meses e antes era de 36 meses.

3. A partir de julho deste ano, há uma redução de 20% no valor do Rendimento Social de Inserção (RSI). Um requerente só pode receber até um máximo de 189,52 euros no total e pode também ter direito a receber por cada pessoa maior de idade 94,76 euros e por cada menor 56,86 euros. Uma família de dois adultos e duas crianças recebe no máximo 398 euros.

4. O acesso ao RSI passa a ter em conta o valor patrimonial mobiliário, o valor dos bens imóveis do requerente e do agregado familiar.

5. A prestação é atribuída por 12 meses e está sujeita a renovação.

Capital

1. A tributação dos rendimentos de capital vai sofrer um agravamento já este ano.

2. Os dividendos, as mais-valias mobiliárias e as "royalties" vão passar a pagar uma taxa de 26,5% contra os atuais 25%. Os dividendos, as mais-valias mobiliárias e as "royalties" vão passar a pagar uma taxa de 26,5% contra os atuais 25%.

3. Os juros dos depósitos também não escapam, ao verem a fiscalidade agravada em 1,5 pontos percentuais. Este será o segundo aumento das taxas desde a chegada da tróika, depois do aumento de 21,5% para 25% em novembro de 2011.

4. Segundo as explicações dadas anteontem pelo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, estas medidas "serão introduzidas ainda em 2012 e continuarão em 2013 e nos anos seguintes".

5. A subida de cinco pontos nas taxas liberatórias coloca Portugal num dos níveis mais elevados da Europa.

Pensionistas

1. Sobretaxa de 3,5% no subsídio de Natal pagos em 2011.

2. Suspensão parcial dos subsídios de férias e de Natal para reformas entre 600 e 1100 euros e total a partir deste valor.

3. Redução da dedução específica de 6 mil para 4104 euros.

4. Congelamento do aumento das pensões, exceto para as mínimas.

5. Proibição de acumular a pensão com uma remuneração paga pelo desempenho em cargos públicos. Em 2012, a medida passou a abranger os reformados da Segurança Social ou de entidades gestoras de fundos de pensões públicas, até ai apenas visava os da CGA.

6. Agravamento da taxa de solidariedade passando esta a ser de 25% para as pensões de valor entre 5 mil e 7500 euros e de 50% na parte que excede este valor

7. Aplicação do corte antes aplicado aos funcionários públicos que incidirá sobre reformas a partir dos 1500 euros.

(Fonte, Jornal de Notícias, em 12-9-2012)