quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

CHICO ESPERTO, O CAVALO MATEMÁTICO



No início do século xx houve um cavalo na Alemanha que sabia ler e contar e mostrava ter um conhecimento profundo das questões políticas mundiais. Ou, pelo menos, assim parecia. O cavalo tinha o nome de Chico Esperto. O seu dono era Wilhelm von Osten, um cidadão de Berlim tão respeitável que, segundo o que se dizia, a hipótese de fraude estava inteiramente fora de questão. Delegações de cientistas famosos observaram o milagre equino e deram-no como genuíno. Chico respondia a problemas de matemática que lhe eram postos dando pancadas em código com uma das patas dianteiras e respondia a questões não matemáticas abanando com a cabeça para cima e para baixo ou para um lado e para o outro, à maneira ocidental. Por exemplo, alguém perguntava: "Chico, quanto é o dobro da raiz quadrada de nove menos um?" Ao fim de uma breve pausa, Chico levantava devidamente a pata direita e batia no chão com ela quatro vezes. "Moscovo é a capital da Rússia?" A cabeça abanava para cima e para baixo. "E Sampetersburgo?" A cabeça movia-se negativamente.

A Academia das Ciências Prussiana mandou uma comissão liderada por Oskar Pfungst para observar de mais perto; Osten, que acreditava piamente nos poderes de Chico, acolheu os investigadores calorosamente. Então Pfungst reparou numa série de regularidades muito interessantes. Quanto mais difícil era a pergunta, mais tempo levava Chico a responder; quando Osten desconhecia a resposta, Chico mostrava igual ignorância; se Osten estava fora da sala ou se o cavalo tinha antolhos, as respostas não eram dadas com a mesma rapidez. Mas, de outras vezes, Chico dava a resposta num lugar pouco familiar, rodeado por cépticos, às vezes mesmo com Osten fora da cidade. A explicação tornou-se clara mais tarde. Quando era posto a Chico um problema de matemática, Osten ficava ligeiramente nervoso, temendo que Chico batesse demasiadas vezes com a pata. Quando Chico, no entanto, alcançava o número correto de pancadas, Osten, inconsciente e imperceptivelmente, inclinava a cabeça e ficava completamente relaxado: imperceptivelmente para todos os seres humanos presentes, mas não para Chico, que era recompensado com um cubo de açúcar por cada resposta correta. Até as equipas de céticos olhavam para a pata de Chico logo que a pergunta era feita e acompanhavam com olhares, gestos e posturas precisos o momento em que o cavalo acertava na pergunta. Chico era completamente ignorante em matemática, mas muito sensível aos sinais não-verbais feitos inconscientemente pelas pessoas. Sinais semelhantes aos que devia fazer para responder eram-lhe transmitidos sem querer quando perguntas de ordem verbal eram postas. Chico Esperto tinha o nome certo: era um cavalo que condicionava um ser humano e descobrira que outros seres humanos que nunca vira antes lhe forneciam os sinais de que necessitava. Mas, apesar da natureza evidente da prova de Pfungst, histórias semelhantes de cavalos, porcos e gansos que sabem ler e contar e que percebem de política continuam a enganar os ingénuos de muitos países.

Por exemplo, Lady Wonder, uma égua nascida na Virgínia, respondia a perguntas ordenando com o focinho cubos de madeira com letras. Como também respondia a interrogações feitas em particular pelo seu dono, foi declarada não só uma égua erudita, mas também telepática pelo parapsicólogo

1. B. Rhine (Diário da Psicologia Anorma! e Social, 23, 449,1929). O mágico John Scarne descobriu que o dono acenava intencionalmente com um chicote enquanto Lady Wonder movia o focinho entre os cubos para formar palavras. O dono parecia estar fora do campo de visão da égua, mas os cavalos têm excelente visão periférica. Ao contrário de Chico Esperto, Lady Wonder foi parte numa fraude intencional.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O CÉREBRO DE BROCA



Paul Broca foi um cirurgião, neurólogo e antropólogo que desempenhou um papel importante tanto no desenvolvimento da medicina como no da antropologia nos meados do século xIx. Levou a cabo um trabalho considerável na patologia do cancro e no tratamento de aneurismas e deu uma contribuição essencial para a compreensão das origens da afasia – uma diminuição da capacidade de articular ideias. Broca foi um homem brilhante e compassivo. Preocupou-se com os cuidados médicos a prestar aos mais desfavorecidos. Encoberto pela escuridão, e arriscando a vida, conseguiu desviar de Paris, numa carroça, 73 milhões de francos, enrolados em sacos de serapilheira escondidos debaixo de batatas, dinheiro que constituía o tesouro da Assistance Publique e que ele, por qualquer razão, acreditava estar a salvar da pilhagem. Foi o fundador da neurocirurgia moderna. Estudou a mortalidade infantil. No fim da sua carreira chegou a senador. Broca gostava acima de tudo, como disse um biógrafo, de calma e tolerância. Em 1848 fundou uma sociedade de "livres-pensadores". Isolado entre os intelectuais franceses do seu tempo, solidarizou-se com a ideia de Charles Darwin sobre a evolução por seleção natural. O livro de T. H. Huxley O Bulldog de Darwin sublinha que uma só referência ao nome de Broca era capaz de o encher de gratidão e Broca foi citado nele como tendo dito: "Eu prefiro ser um macaco transformado a ser um filho degenerado de Adão." Por esta e outras afirmações, foi publicamente acusado de "materialista" e, como Sócrates, de corromper a juventude. De qualquer forma, chegou a senador. No início, Broca encontrou muitos obstáculos para fundar em França uma sociedade de antropologia. O ministro da Instrução Pública e o chefe da Polícia acreditavam que a antropologia devia ser, tal como a busca do conhecimento sobre os seres humanos, naturalmente subversiva para o estado. Quando, por fim -e mesmo assim com alguma relutância- foi concedida a Broca autorização para falar de ciência com oitenta colegas, o chefe da Polícia tornou Broca pessoalmente responsável por tudo o que nesses encontros fosse dito "contra a sociedade, a religião ou o governo". Ainda assim, o estudo dos seres humanos foi considerado um ato tão perigoso que a Polícia contratou um espião, que aparecia vestido à paisana durante as reuniões e que tinha ordens para interromper de imediato a sessão se se sentisse ofendido por qualquer coisa que fosse dita. A Sociedade de Antropologia de Paris reuniu-se, nestas circunstâncias, pela primeira vez, em 19 de Maio de 1859, ano da publicação de A Origem das Espécies. Em reuniões subsequentes foi discutido um número considerável de questões -arqueologia, mitologia, fisiologia, anatomia, psicologia, linguística e históriae é fácil imaginarmos o espião da Polícia desatento na maioria das ocasiões e às vezes deixando cair a cabeça de sono. Broca relatou que, uma vez, o espião quis dar um pequeno passeio para que não estava autorizado e perguntou se podia abandonar a sala com a certeza de que, na sua ausência, nada de ameaçador seria dito em relação ao estado. "Nem pense nisso", disse-lhe Broca. "Você não pode ir a parte alguma: sente-se e mereça aquilo que lhe pagam." Não foi a Polícia a única que se opôs ao desenvolvimento da antropologia em França. Em 1876, o partido ligado à igreja católica organizou uma campanha enorme contra o ensino dessa disciplina no Instituto Antropológico de Paris, fundado por Broca. Paul Broca morreu em 1880, vitimado talvez pelo mesmo tipo de aneurisma que tão brilhantemente estudara. Nessa altura debruçava-se sobre um estudo global do cérebro humano. Tinha fundado em França as primeiras sociedades profissionais, escolas de pesquisa e algumas publicações científicas de antropologia moderna. Os seus espécimes de laboratório foram então incorporados naquilo a que, durante muitos anos, se chamou o Musée Broca e que, mais tarde, acabou por fazer parte do Musée de 1'Homme. Fora o próprio Broca, cujo cérebro eu embalava entre as mãos, quem iniciara a coleção macabra que eu contemplava. Estudara embriões, macacos e pessoas de todas as raças, trabalhando como um louco para compreender a natureza de um ser humano; e, apesar do aspeto atual da coleção e das minhas suspeitas, ele não era, pelo menos segundo os padrões do seu tempo, mais racista ou chauvinista do que qualquer outra pessoa e muito menos essa figura típica da ficção e, mais raramente, factual: o frio, despreocupado e desapaixonado cientista, muito pouco interessado pelas consequências humanas dos seus atos. Broca interessava-se e muito.

Broca era um exemplar anatomista do cérebro e fez notáveis investigações sobre a região límbica, anteriormente denominada "rinocéfalo" (o "cérebro olfactivo"), que sabemos agora estar profundamente ligada às emoções humanas. Mas Broca nos dias de hoje, é sobretudo conhecido pela descoberta de uma pequena zona na terceira circunvolução do lóbulo frontal esquerdo do córtice cerebral, zona conhecida atualmente como "área de Broca". O discurso articulado, ao que parece, como Broca inferiu de provas apenas fragmentárias, está localizado e é controlado pela área de Broca. Foi uma das primeiras descobertas de que existe uma separação de funções entre os hemisférios esquerdo e direito do cérebro; mas, mais importante ainda, foi uma das primeiras indicações de que funções específicas do cérebro existem em locais particulares do mesmo, de que existe uma relação entre a anatomia do cérebro e aquilo que ele faz, atividade por vezes descrita como "mente". Ralph Holloway é um antropólogo físico da Universidade de Colúmbia, cujo laboratório suponho ter algumas semelhanças com o de Broca. Holloway faz modelos de borracha das partes internas de crânios de seres humanos e afins, de tempos remotos e dos dias de hoje, numa tentativa de reconstruir, a partir de leves indentações no interior do crânio, aquilo que o cérebro deve ter sido numa época remota. Holloway crê que consegue identificar pelo crânio de uma criatura se a área de Broca está ou não presente e encontrou provas da existência de uma área de Broca no cérebro de um Homo habilis com mais ou menos 2 Milhões de anos - precisamente a era das primeiras construções e dos primeiros utensílios. Assim, existe algo que tem a ver com a visão frenológica. É bem provável que o pensamento humano e a indústria tenham andado a par com o desenvolvimento do discurso articulado; e a área de Broca pode, na realidade, ser uma das bases da nossa hominização, bem como um meio de determinar as relações que existem entre nós e os nossos antecessores, na sua caminhada em direção a essa hominização.

Broca foi um humanista do século xIx, mas não foi capaz de abalar os preconceitos enraizados ou as doenças sociais da humanidade do seu tempo. Achava que o homem era superior à mulher e que os Brancos eram superiores aos Negros. Mesmo a sua afirmação de que os cérebros germânicos não eram significativamente diferentes dos franceses foi uma reação à intransigência dos teutónicos, que apregoavam a inferioridade gaulesa. De qualquer forma, ele concluiu que havia relações profundas, na fisiologia cerebral, entre os gorilas e o homem. Broca, o fundador, na sua juventude, da sociedade dos livres-pensadores, acreditava na importância da investigação livre e viveu a sua vida para atingir esse objetivo. A sua incapacidade de realizar esse ideal só mostra que, mesmo os que têm ilimitada capacidade para o livre estudo do conhecimento, como Broca, podem ser paralisados por um obscurantismo endémico e respeitável. A sociedade corrompe aquilo que há de melhor dentro de cada um de nós. Creio que será um pouco injusto criticar alguém pelo facto de não partilhar a clarividência de uma época posterior; mas é também profundamente triste que tais preconceitos se tenham difundido tanto. A questão levanta dúvidas contínuas sobre quais das verdades convencionais da nossa geração serão consideradas pela próxima como um obscurantismo imperdoável. Uma maneira de recompensar Paul Broca por esta lição que ele, inadvertidamente, nos proporcionou é desafiar, profunda e seriamente, as nossas crenças mais enraizadas.

E, na nossa geração, o desenvolvimento das armas nucleares pode, se tivermos pouca sorte e falta de juízo, tornar-se um caso precisamente deste tipo. No entanto, no que diz respeito às experiências sobre o cérebro, os nossos medos são menos intelectuais. Mergulham profundamente no nosso passado evolutivo. Fazem-nos pensar nas criaturas selvagens e nos homens que aterrorizavam os viajantes e as populações rurais da Grécia antiga à beira dos caminhos, através de mutilações procrusteanas e outras selvagerias, até que um herói qualquer -Teseu ou Hércules- conseguisse desembaraçar-se deles sem esforço. Estes medos tiveram uma função específica no passado; mas no presente creio que são apenas portadores de uma grande carga emocional. Eu estava interessado, como cientista que escrevera sobre o cérebro, em encontrar essas reações escondidas dentro de mim, revelando-se durante a minha visita à coleção de Broca. Vale a pena lutar contra os medos. Todas as investigações trazem consigo um certo elemento de risco. Não há garantias de que o universo seja conforme às nossas predisposições. Mas não vejo como podemos agir em relação ao universo - tanto o interior como o exterior - sem o estudarmos. A melhor maneira de evitar abusos, no que concerne ao público em geral, é sermos cientificamente competentes, compreendermos as implicações que existem nessas investigações. Em troca da liberdade de pensamento, o cientista é obrigado a prestar contas do seu trabalho. Se a ciência é considerada um sacerdócio muito fechado, demasiado difícil e secreto para o homem comum compreender, então os perigos do abuso são maiores. Mas, se a ciência é um assunto do interesse geral que preocupa todos -se tanto os seus prazeres como as suas consequências sociais se discutem regularmente nas escolas, na imprensa e ao jantar-, fizemos o melhor que podíamos na aprendizagem de como o mundo é na realidade e do que podemos fazer por ele e por nós próprios. Às vezes penso que esta é uma das ideias que ainda deve estar ali, quieta, preguiçando em formol, no cérebro de Broca.